Mas foi apitando peladas que Mário foi observado por amigos que, rápido o aconselharam a fazer um curso de árbitro para Liga Metropolitana do Rio de Janeiro. Após realizar com destaque os testes exigidos, Mário Vianna saiu-se muito bem, ficando com o primeiro lugar da turma.
Mário Vianna estreou como árbitro apitando um jogo dos chamados menores. Com muito destaque e autoridade, apitou um jogo entre os times juvenis do Girão, de Niterói e o seu querido São Cristóvão.
Ora, e o qual é o bom árbitro? Garantem alguns que é aquele que só é notado quando o jogo acaba. Quando apita bem, passa despercebido, ganha elogios que são rapidamente esquecidos no momento que comete um erro. Aí o juiz de futebol volta a ter seu nome falado, quase sempre acompanhado dos xingamentos e da ira da torcida. Pois esse era o perfil de Mário Gonçalves Vianna, sempre disposto a não levar desaforos (e desafios) para a sua velha Urca.
A atitude do arbitro Mário Vianna, no campo de General Severiano, na tarde de 23 de novembro de 1947 quando jogavam Flamengo e Botafogo, pode ser alvo de um meticuloso estudo psíquico, em face dos acontecimentos que precederam os lances que culminaram com uma resolução drástica. Parecia impossível, um homem enfrentar uma multidão.
Tudo começou com um lance perdeu do alambrado onde estava a torcida do Flamengo, quando um torcedor jogou uma garrafa que caiu entre Sarno, Tião e o bandeirinha. Mário Vianna apanhou a garrafa, voltou-se para a torcida e ameaçou atirá-la de volta. Foi aquele corre-corre.
E ele gritou: Por que correram? É porque a garrafa machuca ? Então porque jogaram ?
O público aplaudiu Mário Vianna e o jogo continuou. Quando o Botafogo já vencia por 4×2, aconteceu o lance fatal. Pirilo deu um ponta-pé no goleiro Osvaldo do Botafogo e foi expulso. Tião reclamou e também saiu mais cedo. E, quando Mário Vianna passou perto das gerais, onde estava a torcida do Flamengo, foi atingido por um pedaço de pau. Irritado, pegou o pedaço de pau e jogou contra a torcida. A reação popular foi imediata. Uma verdadeira chuva de pedras, paus e cadeiras caíram no gramado, sempre procurando atingir o juiz. Em principio, Mário Vianna tentou revidar, mas depois teve que recuar. Somente com a intervenção da policia é que a coisa parou. O jogo não terminou por falta de garantias. (Esporte Ilustrado).
Segundo o próprio Mário Vianna, dois jogadores lhe deram muito trabalho: Heleno de Freitas e Zizinho. Heleno era irreverente, malicioso. Um dia, no campo do Vasco, tentou comprometer a arbitragem perante o público, entregando um disco de bolero que o próprio Mário Vianna tinha pedido para o atacante do Botafogo trazer do Chile. O disco foi entregue na pista do estádio e diante do público. No jogo, Heleno quis comandar a arbitragem e terminou expulso de campo.
Houve um jogador que, talvez por ser estrangeiro e desconhecer a fama de valentão de Mário Vianna, teve a infeliz idéia de desafiá-lo. Foi durante o jogo Itália e Suíça na Copa do Mundo de 1954. Inconformado com uma marcação do brasileiro, Boniperti partiu para cima do juiz aos empurrões. Mário Vianna aplicou-lhe um direto no queixo. Mandou que o carregassem para os vestiários e, ironicamente, disse para o massagista:
Se ele tiver condições, pode voltar para o segundo tempo. Boniperti voltou bem mansinho.
Como todo personagem folclórico, Mário Vianna também tinha o seu lado místico. Era espírita da linha Alan Kardec, rezava ao se deitar e se levantar. Alguns casos são conhecidos. Na Copa de 1970, era companheiro de quarto de Luis Mendes.
Certa manhã ao se levantar, virou-se para o companheiro e disse Mendes, liga para tua casa porque teu irmão desencarnou. Apavorado, Luís Mendes pegou o telefone, ligou para casa e ficou sabendo que seu irmão havia falecido naquela madrugada.
Waldir Amaral contou que certa vez estava embarcando com Mário para São Paulo. E Mário advertiu Waldir esse avião vai pifar. Vamos esperar outro vôo.
Que nada, Mário, deixe de besteiras retrucou Waldir Amaral.
Os dois embarcaram e, quando o avião ia decolar, o motor enguiçou e o piloto foi obrigado a dar um cavalo-de-pau para não cair na baía da Guanabara. (Museu dos Esportes)
Quem conheceu o Rio de Janeiro nas décadas de 70 e 80 sabia que era muito fácil encontrar Mário Vianna praticando algum esporte na praia da Urca, a única no mundo que é urbana e tem ares de particular. Ali, entre a sede do Botafogo, o Hospital Pinel e o prédio da extinta TV Tupy, Mário Vianna transitava com desenvoltura e conhecia as pessoas quase uma por uma. Mário faleceu no Rio de Janeiro no dia 16 de outubro de 1989.

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